Betaendorfinas (portugués)

Em fevereiro de 2007, os media tauromáquicos fizeram eco de uma tese lançada pelo então director do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Complutense de Madrid.
Baseando-se nas respostas do sistema neuroendócrino (nervoso e hormonal) do touro, após ter sido morto na lide, esse veterinário disse que os animais haviam produzido – durante a lide – elevadas quantidades de umas substâncias chamadas betaendorfinas. Graças a esta alta produção de hormonas, chegou mesmo a afirmar que o touro, durante a lide, era capaz de neutralizar a dor e o stress aos quais estava a ser submetido.

Quando consultamos algumas páginas da Internet ou livros de qualidade científica duvidosa, encontramos que as betaendorfinas foram qualificadas como: “hormonas do prazer” e “hormonas da felicidade”. Também se pode ler que essas hormonas neutralizam a dor, que são libertadas durante o orgasmo, e que nos fazem sentir muito bem depois de fazermos exercício físico. Há quem lhes atribua toda essa sensação de prazer, fazendo com que algumas pessoas vão ao ginásio, como se de uma droga se tratasse. De facto, as betaendorfinas têm uma estrutura química semelhante à do ópio, e por isso, no mundo da ciência, são conhecidas como opiáceos endógenos. Com efeito, são e têm sido investigadas pela comunidade científica para o fabrico de analgésicos em muitos laboratórios. Ocupam também um importante espaço nas linhas de investigação da medicina desportiva aeróbica e anaeróbica.
É então, até certo ponto, “lógico”, que um leigo na matéria possa pensar que o “touro de lide” sente prazer e felicidade aquando da lide, ou seja, quando se lhe cravam as puyas e as bandarilhas, se o esgota fisicamente através do toureio a pé, quando é estoqueado, quando se usa o descabella (por vezes) e se apunhala. Eu disse leigo, e não professor e director de um Departamento de Fisiologia numa Faculdade de Veterinária. Eu disse… Mas, as declarações do referido veterinário podem ser lidas e ouvidas em vários fóruns, e devemos reconhecer que têm tido – e ainda têm – sucesso no mundo de alguns tauromáquicos, para os quais é reconfortante pensar que estes animais não sofrem tanto quanto se possa pensar, aumentando assim as mentiras, ou meias verdades, que alimentam o seu argumentário.

Indo mais longe, e como apontei anteriormente, é lógico pensar que se estas hormonas estão relacionadas com a analgesia, e que se um organismo como o do touro de lide, submetido a práticas que lhe provocam essa desagradável sensação, e que ele as fabrica em grandes quantidades, será capaz de neutralizar a percepção dolorosa sem chegar a sentir prazer e felicidade, coisa que logicamente é bastante improvável, ou melhor dizendo, impossível.

Depois de cinco anos a contrastar este tipo de informações, que pertencem mais à “sabedoria popular” do que à científica, nós, os veterinários integrantes da Asociación de Veterinarios Abolicionistas de la Tauromaquia y del Maltrato Animal (AVATMA), podemos afirmar, tal como temos feito em variadíssimos fóruns, que estas conclusões carecem de fundamento e que são totalmente falsas.
Porque é que são totalmente falsas e carentes de fundamento científico? Porque, como vamos passar a explicar, é de todas as formas, lógico e normal que o touro durante a lide as produza em grandes quantidades.

Depois de analisar milhares de artigos científicos (publicados em revistas de primeiro nível), sabemos que:

Estas hormonas, as betaendorfinas, NÃO se produzem durante o orgasmo, logo, não podemos chamar-lhes hormonas do prazer.
Sabemos que NÃO se produzem quando se realiza um exercício para o qual o organismo que o realiza está preparado, mas sim, que são descarregadas quando esse organismo ultrapassa os limites para os quais está treinado, ou seja, quando começa a sofrer fisicamente. Não podemos, portanto, chamar-lhes hormonas da felicidade.
Sabemos que SIM, têm relação com a dor, ou seja, produzem-se quando se tem uma sensação dolorosa, mas apenas ao nível do sistema nervoso periférico. Sabemos, portanto, que podem paliar determinados tipos de dor, mas não neutralizá-la, já que actuam inibindo a produção de um seu mediador; a chamada substância P. Ao nível do sistema nervoso central não têm nenhum tipo de acção sobre a dor. Se fossem capazes de neutralizar dor, então para que usamos analgésicos? Se são capazes de a neutralizar, porque é que há muitos touros que coxeiam ou claudicam durante a lide e demonstram dor no tercio de bandarilhas ou quando são estoqueados, quando se lhes espetam o descabello o a puntilla?

Mas, que mais sabemos nós que possa explicar de forma lógica e científica que o touro durante a lide as
descarregue em grandes quantidades?
Sabemos que se produzem em grande quantidade quando um mamífero se encontra numa situação de alto STRESS (1). Mais, são marcadores do stress no mundo científico. É evidente que a lide stressa enormemente o touro, e não só a lide, mas tudo o que lhe acontece antes dela: separação da manada, saída do seu meio natural, transporte, espera em praça, ambiente novo no qual se encontra…É portanto, “curioso”, que se nos diga que a lide stressa pouco o touro em comparação com o transporte ou a saída à praça. Digo “curioso”, mas poderia utilizar outro término, o qual me absterei de usar para não subir o tom da minha indignação
Sabemos que se produzem quando se sofre de FOME (2) E SEDE (3). Os touros de lide podem perder no transporte até 50 ou mais quilos de (num trajecto de apenas 100km), e até 5Kg durante a lide. Os touros de lide não comem desde que são embarcados no camião de transporte até morrerem na arena. Quanto muito, em algumas praças é-lhes dado um pouco de palha. A lide em si provoca sede e desidratação no animal.
Sabemos, como já mencionámos, que se produzem quando se realiza um exercício extenuante para o qual não se está preparado, isto é, quando se produz o que se conhece como ESGOTAMENTO FÍSICO (4). O touro é um herbívoro e como tal não tem a preparação adequada para aguentar fisicamente a lide. De facto, o touro, durante a lide, sofre várias LESÕES MUSCULARES (5) , comprovadas em análises post mortem, e “curiosamente” as referidas lesões acontecem nos músculos relacionados com a locomoção e não nos feridos pelos instrumentos cortantes e afiados que lhe são cravados. As hormonas que nos servem para quantificar o sofrimento dos músculos, a CPK, a LDH, a AST e o cortisol, estão muito elevadas nestes animais depois da sua morte na arena. Os músculos da locomoção dos animais, quando terminam a lide, não têm ácido láctico, mas os seus tecidos e o seu sangue estão carregados de lactato, logo, padecem do que se conhece como ACIDOSE METABÓLICA (6). Sabiam que este estado de sofrimento orgânico é uma das causas principais de descarga de betaendorfinas nos mamíferos? Sabiam que este estado de acidose é um marcador inequívoco de sofrimento nos herbívoros ruminantes?
Sabemos que as betaendorfinas se descarregam em grandes quantidades quando há uma HEMORRAGIA (7) ou perda de sangue. Por exemplo (e há muitos mais), em ratos de laboratório aos quais se provocaram feridas sangrantes, estas hormonas aumentaram até quarenta vezes o seu valor normal, por conta dessa circunstância.
Há hemorragias no touro durante a lide? Apenas como consequência da sorte de varas, um touro pode perder entre 8 e 18% do seu volume sanguíneo, ao que se somará o sangue que perde com as bandarilhas, as estocadas, os descabellos e o uso da puntilla.
Sabemos que estas hormonas se produzem quando há falta de oxigénio nos tecidos e no sangue, o que se conhece como HIPOXIA (8). Todos os touros durante a lide sofrem desta condição: uma evidente insuficiência respiratória que se traduz em altos índices de dióxido de carbono e uma clara diminuição dos níveis de oxigénio.
Sabemos que as betaendorfinas se produzem quando há um aumento de glucose no sangue, e todos os touros depois da lide têm HIPERGLICÉMIA (9) provocada pela enorme mobilização dos depósitos de glicogénio que se produz como consequência da grande quantidade de energia que necessitam consumir para tentar (eu disse tentar) adaptar-se ao castigo e ao exercício aos quais são submetidos.
Sabemos que a lide provoca DOR (10) no touro, e já dissemos que a sensação dolorosa é um factor que provoca a descarga destas hormonas. Há dúvidas de que as puyas, bandarilhas e o resto dos utensílios que os toureiros e os seus subalternos utilizam, causam dor a animais? É impossível duvidar. Na verdade, as mulheres cujos partos são mais dolorosos e stressantes são as que mais altos níveis de betaendorfinas apresentam. E que se não me acuse de comparar a espécie humana ao touro de lide, porque o mencionado professor disse: “o touro descarrega durante a lide 10 vezes mais betaendorfinas do que a espécie humana”. Alguma vez nos “lidaram” para poderem sustentar esta afirmação?
Sabemos que a IMUNOSUPRESSÃO (11), inerente às situações de stress e de sofrimento provoca a descarga de betaendorfinas e sabemos que está presente em touros que foram lidados e que morrem na arena.
Sabemos que quando se faz uma FERIDA (12) ou um TRAUMATISMO (13), o organismo dos mamíferos produz grandes quantidades destas hormonas. Há feridas e traumatismos durante a lide? É evidente!
E, para concluir, sabemos que quando há DESIDRATAÇÃO (14) e HIPOVOLÉMIA (15) (diminuição do volume sanguíneo circulante), os mamíferos produzem grandes quantidades de betaendorfinas. E ninguém me poderá negar que os touros lidados padecem destas duas condições.

Sabemos tudo isto porque a CIÊNCIA (com maiúsculas) assim o diz através de inúmeras investigações no campo da endocrinologia.
É de estranhar que estes animais, a quem se maltrata e tortura durante a lide nas praças de touros produzam grandes quantidades de betaendorfinas? Parece-vos que as razões pelas quais um ser vivo as produz são porque sente prazer e/ou felicidade? Não seria mais lógico explicar que as betaendorfinas se produzem em casos de máximo sofrimento orgânico, e que o organismo do touro as descarrega como resposta a essas terríveis e desagradáveis sensações das quais está a padecer, e perante as quais tenta (digo, tenta) responder sem conseguir?
Há 15 causas identificadas pelas quais um mamífero produz betaendorfinas, e todas, absolutamente todas, acontecem ao touro durante a lide.
Veja como um touro entra numa arena e como a abandona. Em que lhe ajudaram as betaendorfinas?

José Enrique Zaldívar
Presidente da AVATMA
Asociación de Veterinarios Abolicionistas de la Tauromaquia y del Maltrato Animal

PROHIBIDO SU USO